2012
01.29

RostoVestido sem o peculiar alinho da juventude, sequer resta alguma elegância dos tempos de jovem. A energia e a disposição também não são as mesmas.

Cabelos prateados, mãos tremulas, pernas vacilantes, o rosto marcado pelo tempo e a voz fraca em frágeis palavras.

Os olhos quebrados deixam ver a vida com triste amargura.

Dias longos que continuam correndo alternados entre a confiança e o desanimo. Nada de vaidade, sua vida passa em branco e preto.

Dores de dias que acabam e passam deixando profundas marcas na dolida alma.

Áspero e sangrento duelo do homem contra o tempo.

Quem vence?

Nem um, nem outro!

2011
12.22

Polo NorteExiste algo mais sem sentido do que um eCard?

Quando recebo um cartão eletrônico, seja de aniversário ou de Natal, tenho a impressão que a pessoa que me mandou o fez unicamente por obrigação. Como já está pronto – inclusive a mensagem pasteurizada – não demora mais do que 1 minuto para se livrar da obrigação. Mas o que se pode fazer, por mais que os românticos resistam, o mundo evolui, a fila anda.

Fico então pensando quando virá o Papai Noel virtual. Um velhinho barrigudo vestido com roupas vermelhas, a barba branca, as bochechas coradas, botas e cinto pretos com fivelas brilhantes e luvas impecavelmente brancas, tudo isto disponível na versão 3D e me chamando pelo nome.

Nenhuma criança vai duvidar que ele existe, afinal está ali na frente na tela do computador ou (mais…)

2011
11.20

FlorestaTenho me esforçado na tentativa de abolir a palavra “quando?” do meu dicionário de vida – isto mesmo a palavra quando grafada com um ponto de interrogação – porque estou convencido de que esta palavra me afasta da felicidade.

Confesso que não tem sido fácil, afinal somos treinados para pensar no futuro. Também nos ensinam que devemos pensar grande e rápido. Mas, o mais importante na vida prega os profetas, é o sucesso. A que preço? Não interessa; me mato agora e ganho o direito ao desfrute no futuro.

Com esta estratégia em mente e o coração vacilante criamos o mantra do “quando?”.

Quando eu tiver dinheiro suficiente poderei trabalhar menos e me dedicar a minha família; quando eu tiver um bom emprego poderei fazer aquele curso de fotografia que tanto falo; quando eu tiver a minha casa própria poderei realizar o sonho de aprender a dançar; quando eu conseguir comprar o carro que desejo poderei viajar mais. Quando, quando, quando, … (mais…)

2011
10.23

Arvore SepiaUm lampejo de nostalgia me fez lembrar a casa de meus pais, o quintal e as dálias amarelas, o portão de ferro e dos latidos insistentes do cachorro. No silencio da noite se ouvia o ultimo trem rangendo o freio ao chegar à minúscula estação, para depois re-iniciar a fatigante viagem.

Lembrei-me da quitanda da Dona Teresa, uma senhora idosa, baixinha e gordinha que recebia os fregueses com um sorriso enorme no marcado rosto e uma atenção sem igual. O que eu mais gostava eram os doces, tinha: maria-mole, pé de moleque, doce de leite, merengues e muitos outros quitutes. Com frequencia, a minha mãe, parava na quitanda para comprar verduras e legumes frescos, e eu, sempre na expectativa de que me fosse regalado um doce ou, pelo menos, alguns caramelos.

Ao lado da quitanda havia o açougue do Sr. Ângelo, um homem alto, de pele rosada, sempre disponível para uma conversa fiada. Mesmo que juntassem pessoas para serem atendidas, o Sr. Ângelo nunca tinha pressa. Eu adorava pedir carne moída só para ver a máquina funcionando. (mais…)

2011
09.17


Caminhavam abraçados na ensolarada, embora fria, tarde de sábado. Ele parou em frente a uma banca de flores e pediu para ela fechar os olhos; comprou um maço de margaridas, suas flores preferidas. Quando ela o viu com o maço de flores na mão, saltou em seu pescoço e o beijou com carinho. Tirou uma margarida do buque e exclamou:

– Vamos fazer o jogo do bem-me-quer?

Sem lhe dar chances de resposta, despetalou a margarida, e a última pétala foi um “bem-me-quer”.

– Eu sabia disse ela, nosso amor não permite um mal-me-quer.

É verdade, entre eles existe algo singular quando estão juntos, aquela vontade de dizer bobagens meigas, de fazer carinho, de abraçar, sentir o vibrar dos corpos. Quando estão longe o bem querer conforta e faz sentir o calor, o carinho, o amor. Mantém a alma desperta e o coração em chamas. Mesmo quando estão longe se sentem perto. (mais…)

2011
09.01

SolDe natureza fugidia, desde muito cedo, o sol brilha com fúria e, no final de sua jornada diária, o amarelo cítrico vai cedendo espaço ao vermelho intenso, que sobriamente se transforma em violeta para rapidamente se reduzir ao nada.

À medida que a luz do sol vai perdendo força no tornassol horizonte, calam-se as palavras e emergem os sonhos, planos e promessas.
O crepúsculo começa onde tudo acaba, é a aurora vista do fim para o começo, acumulando a experiência vivida em um dia inteiro. Talvez seja por isso que os homens prestem mais atenção ao sol poente, que traz consigo os mistérios da noite, do oculto, do não sabido, do sombrio, do frio. À noite tudo caminha devagar.

O crepúsculo encanta, paralisa. (mais…)

2011
08.15

Rua AzulA juventude não tem começo, meio e fim. Creio ser impossível determinar o que seria o fim da juventude e o inicio da velhice. O queimor da sensualidade, o viço da pele, o negrume dos cabelos, a primeira vista, ressaltam a imagem da juventude, mas associá-la unicamente a cronologia do tempo é um equivoco, dado que existem muitas pessoas com idade avançada que permanecem jovens sob a ótica da atitude. Por isso, compartilho da linha de pensamento que a juventude tem a ver com o estado de espírito do individuo.

A juventude não é algo que se possa conquistar ganhar ou recuperar, mas extremamente necessária no sentido da amplitude da vida, além disso, os jovens fornecem um colorido especial a vida em sociedade. A juventude é um substantivo que transcende o tangível do biológico, tanto é que uma pessoa pode ser limitada sob a habilidade física por questões de idade, mas conservar a curiosidade, inteligência e a energia.

Quero morrer jovem aos 120 anos de idade.

Por outro lado imaginar que a juventude seja um mérito que agracia alguns, como uma divindade, pode levar pessoas a acreditar que seja possível recuperar a juventude. Então se matriculam na melhor academia, tomam compostos vitamínicos que prometem milagres, vestem-se com roupas juvenis, passam a ouvir musica moderna – mesmo que odeiem, e adotam o vocabulário usado pela garotada. Ao fazer isto não se apercebem que estão agindo da mesma maneira que os adolescentes. Dá para tolerar um adolescente de 50 anos de idade?

É possível se tornar idoso sem envelhecer. (mais…)

2011
07.24

Urubu 1Vivemos numa época em que a intolerância tomou conta das relações humanas. Dizer que não se vê expressada diferenças entre cores de pele, sexos, etnias, poder econômico é fingir ignorar injustiças e discriminação segregatória que estão por todos os lados.

Por acaso um branco sente menos dor que um negro? Uma pessoa de pele amarela sente menos frio que um índio? A resposta obvia é que não, e a razão é simples, independentemente da cor da pele, etnia, credo ou qualquer outra característica do ser humano somos todos absolutamente iguais. Portanto, respeitar uma pessoa significa tratá-la como um ser humano em sua essência, livre e com igualdade de direitos e obrigações.

Sob o ponto de vista da relação entre nações o balanço da história é menos animador ainda, pois houveram guerras devastadoras e crimes hediondos contra a humanidade. Pior ainda tem sido o desequilibrio de poder econômico e de consumo.

É muito comum olhar para trás de maneira saudosista e lembrar-se dos pontos positivos, mas não se trata simplesmente de resgatar os valores morais tradicionais do passado, ou as legitimidades antigas, assim como tentar justificar atitudes egoístas como inovação. Creio ter chegado o momento de repensar a solidariedade e legitimidade das relações e o respeito a individualidades, valores e referencias. O ser humano precisa urgentemente se reinventar! (mais…)

2011
06.18

Via LacteaAlgumas pessoas estão descobrindo que sofrem de FOMO, que pode ser classificada como uma patologia dos tempos atuais. FOMO significa medo de perder, ou “fear of missing out”, como foi cunhado originalmente em inglês este acrônimo. Esta patologia se manifesta nas mais diversas vertentes da vida, desde aquele que sofre porque não pôde assistir a um show até aquele que gostaria de fazer dois ou três cursos de pós-graduação ao mesmo tempo.

A cena pode ser descrita da seguinte maneira. No sábado à tarde do feriado prolongado que você não viajou, depois de um sanduíche engolido na lanchonete da esquina, você volta para casa e sem ter o que fazer resolve entrar no Facebook. Você se depara com antigos colegas de faculdade graduando-se em MBAs, fotos de colegas desfrutando férias ensolaradas na Nova Zelândia, ou de gente do seu trabalho relatando que o feriado prolongado está sensacional em Fernando de Noronha. Então você olha ao redor de seu minúsculo e desordenado apartamento e conclui que a sua vida parece um lixo pois você não está vivendo nada disto.

Estar constantemente preocupado com o que outras pessoas estão fazendo e quem está se divertindo mais do que você ou se preocupar que as pessoas estão fazendo planos sem você é um claro sintoma de FOMO. (mais…)

2011
05.27

UrbanoConfesso que me sinto incapaz de definir, de maneira clara e concisa, a base da diferença entre os dias atuais e de 30 anos atrás. Talvez seja a simplicidade, mas pode ser a velocidade, ou talvez mudanças de valores. Mas a realidade é que além dos avanços científicos e tecnológicos, o comportamento das pessoas mudou radicalmente.

Para começar, há 30 anos, a comunidade das pessoas circundava a vila, no máximo o bairro onde se viva, hoje as comunidades virtuais permitem que a barreira seja nenhuma, no entanto, as relações que eram humanas na essência da palavra, hoje estão na fria ponta dos dedos.

Nossas fotos eram expostas em porta retratos que ficavam dentro de casa, hoje estas fotos precisam ganhar o mundo através das comunidades virtuais. Com isso, o vetor da satisfação foi totalmente invertido, sendo mais importante mostrar a foto do que desfrutar do lugar onde estivemos de férias.

Como não existiam telefones celulares, a comunicação entre as pessoas se dava de forma muito mais pessoal. Encontrar amigos, frequentar bares e cinemas permitia conhecer pessoas e estabelecer novas amizades.

Recentemente estive em viagem no exterior e me peguei olhando cartões postais o que me fez recordar que enviar cartões postais com uma mensagem para os amigos era também uma prática comum a 20 ou 30 anos atrás. Mas hoje fica mais fácil postar as fotos no Facebook, no instante imediatamente após terem sido tiradas, assim ficam visíveis aos seus 6.792 amigos. (mais…)


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